Frei Luís de Sousa

encenaçãoMiguel Loureiro
textoAlmeida Garrett
1 mar - 7 abr 2019
qua e sáb, 19h > qui e sex, 21h > dom, 16h
Sala Garrett
texto Almeida Garrett
encenação Miguel Loureiro
com Álvaro Correia, Ângelo Torres, Carolina Amaral, Gustavo Salvador Rebelo, João Grosso, Maria Duarte, Rita Rocha, Sílvio Vieira, Tónan Quito
cenografia André Guedes
figurinos José António Tenente
desenho de luz José Álvaro Correia
assistência de encenação Gonçalo Ferreira de Almeida

direção de produção José Luís Ferreira
produção Antunes Fidalgo Unipessoal
coprodução TNDM II
 
A classificar pela CCE 
Como pode um encenador alemão fugir ao Fausto de Goethe, ou um francês ao Tartufo de Molière? Um encenador inglês consegue afirmar uma escrita cénica sem passar pelo Hamlet? Como pode um "homem de teatro” português desenvolver a sua poética de cena sem se ver confrontado com um momento-mor do que foi, e ainda é considerado um dos monumentos teatrais do romantismo e mesmo de todo o teatro escrito em Portugal?
O Frei Luís de Sousa é aquela estação de paragem obrigatória, que mais tarde ou mais cedo nos aparece no caminho, como a pedra do Drummond de Andrade, não há volta a dar; é uma afirmação de maturidade na arte do "pôr-em-cena”, no entendimento do que é isto da "cena” nas nossas latitudes meridionais europeias. Se a natureza do teatro em português é susceptível de especificidade, de caso particular, é em grande parte neste drama trágico ou nesta tragédia dramática do nosso Almeida Garrett.
As orquestras, para nos poderem espantar com as frases de Mahler ou Wagner ou Strauss, precisam de praticar Mozart e Haydn, precisam de oxigenar a variação com a referência, com a matriz. Algo de semelhante se passa aqui, nesta minha escolha (a desafio do meu amigo José Luís Ferreira), com o mais clássico dos nossos textos para teatro. Relido como drama ou encenado como tragédia (o terror e a piedade estão lá, como mecanismos de leitura, embora sem as canónicas unidades de ação, tempo e lugar, tal como as definiram os estafermos do passado), o Frei Luís de Sousa será então para mim um desafio formal de aceder ao que de informal tem o teatro: o acidente, a paixão, o impulso, a contingência lírica…tudo formatado no excesso romântico.
Continuar a exercitar, através desta produção, uma medida para teatro que sempre foi nossa, que sempre nos serviu, não só na correspondência literária, mas sobretudo no imaginário: o pathos trágico, o eterno retorno, o nevoeiro e a bruma, a herança espiritual, a iconografia e a iconoclastia, o eterno fogo da danação, a frugalidade do belo, vocábulos góticos… Como? Desequilibrando a ortodoxia dramatúrgica aqui e além, focar-lhe o lirismo, acentuar o anacronismo, confiar ou desconfiar da sua moral, darmo-nos a ler através deste legado.