A palavra e o corpo ausente

A palavra e o corpo ausente

A palavra e o corpo ausente - Laboratório de dramaturgia em estado de exceção
por Davide Carnevali 

A edição deste ano configura-se como uma exceção em tempos de exceção. Pela primeira vez na sua história, a École des Maîtres não se dirige a jovens atores, mas a jovens dramaturgos. 

Isto não significa que iremos desviar a atenção da prática cénica. Pelo contrário. Procuraremos aproveitar a ocasião para refletir sobre a relação entre texto e cena, entre escrita e vida, e fá-lo-emos a partir de um ponto de vista diferente: o daquele que, para a cena, escreve.

Um dramaturgo não escreve teatro, mas para o teatro. Uma dramaturgia pode ser cristalizada num maravilhoso documento de literatura teatral, mas não será teatro enquanto a palavra não se fizer corpo. Admitir a dependência do facto linguístico em relação ao facto cénico não implica, de modo algum, a renúncia à escrita; antes, obriga a repensá-la. Só tomando consciência da própria insuficiência, do que é ser-se dependente em relação a uma outra coisa, algo de desconhecido, ainda não realizado, é que a linguagem se torna plenamente "linguagem teatral”. Linguagem poética e poiética. A dramaturgia pode então configurar-se como o detonador de um dispositivo poderosíssimo: a imaginação. Abrindo-se a um teatro que não imita, mas inventa a realidade.

Mas, para isso, é preciso que o teatro aceite não ser apenas uma questão de palavra e de imagem; ou seja, consiga de alguma forma ser infiel à sua etimologia (em grego, o verbo theaomai significa – ‘grosso modo’ –"observar”). E esse é talvez o aspecto mais interessante da sua natureza: o facto teatral transcende o seu aspecto linguístico e, através dessa operação de distanciamento, também o seu aspecto visual. Porque aquilo que realmente distingue o teatro em relação às outras artes é precisamente o facto de ser manifestação física de alguma coisa que acontece diante de um público de indivíduos em carne e osso, independentemente da linguagem e não obstante o olhar, numa dimensão de partilha de tempo e espaço.

A perda de tal dimensão, a renúncia à copresença física dos corpos, ou seja, à essência íntima da teatralidade, é talvez hoje o perigo maior que corre a sociedade.

Como pode a dramaturgia responder ao desafio?

A pergunta constitui a premissa que fundamenta o nosso laboratório. Escreveremos a partir desta dupla tomada de consciência: a insuficiência da linguagem perante a realidade e o seu enorme potencial criador. Nessa medida, escreveremos para o teatro na sua especificidade de facto material; só que o iremos fazer – e esse é o côté irónico e, só aparentemente, paradoxal da questão – num "estado de exceção” que nos impede, precisamente, a copresença física: vamos trabalhar online, à distância. A nossa tarefa passará, também, por descobrir na dramaturgia uma via de fuga às limitações que nos são impostas no presente e, nessa medida, uma oportunidade para reinventarmos o futuro.

Os textos produzidos irão, por conseguinte, adequar-se à modalidade de apresentação que cada participante tiver previsto, de acordo com as condições em que cada país se vai encontrar no final do laboratório. A última parte do trabalho consistirá no seguinte: adaptar, reduzir, traduzir o texto para uma modalidade específica de ‘posicionamento na realidade’. Este processo de tradução não é secundário e servirá para compreendermos, ainda mais, a importância dos aspectos práticos de uma vida cénica no aqui e agora a que, no momento, somos forçados a renunciar. Mas que nunca devemos perder de vista como horizonte último da dramaturgia e do teatro.

Davide Carnevali

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