Terra Nullius

Terra Nullius

Terra Nullius, criação em curso

Faz hoje 43 dias que eu e o João Bento estivemos juntos pela última vez. Andávamos a imaginar um tsunami que varria a Praça D. Pedro IV, transformando tudo em água.
 
Este evento prodigioso faria parte do projeto Terra Nullius, que começou a ser criado há dois anos na Islândia e lentamente está a migrar para cá, para Portugal, para o Teatro Nacional D. Maria II. Um projeto que transborda do espaço do teatro, ocupando a geografia urbana da cidade e o espaço virtual de discussão e pensamento. Há 43 dias o João Bento e eu estávamos a ensaiar a caminhada que seria feita em conjunto por um grupo de pessoas no Dia Mundial do Teatro. Começámos na praça do Rossio, junto à fachada do Teatro Nacional D. Maria II, onde agora se lê "Olá, Humanidade”, depois atravessámos a praça lentamente e entrámos na Baixa, pela Rua dos Sapateiros. Na Rua da Assunção, junto ao elevador de Santa Justa, virámos à esquerda e continuámos a descer pela Rua Augusta até atravessarmos o Arco e mergulharmos na Praça do Comércio. Atravessámos a praça dando-nos conta pela primeira vez do barulho que os nossos pés fazem ao caminhar naquele piso e, depois da última passadeira de peões, chegámos finalmente à margem do Rio Tejo. No caminho, algumas pessoas interpelaram-nos, outras olhavam só para nós tentando perceber o que faziam aquelas duas criaturas ligadas por fios com headphones e uma coisa que parecia ser um grande microfone.
 
Entretanto o tsunami chegou mesmo, sob a forma de uma doença, que nos obrigou a ficar fechados nas nossas casas, deixando a Baixa da cidade completamente vazia e tornando o invisível do dia-a-dia mais visível do que nunca. E a caminhada que preparávamos para o dia 27 de março nunca aconteceu. A nossa onda gigante está suspensa, congelada no momento mesmo antes de rebentar sobre a cidade.

Gostávamos que ouvissem a cidade como estava nesses dias e a imaginassem como está agora. Alguma coisa tem de acontecer entre esses dois pontos. Só ainda não sabemos o quê.

Paula Diogo e João Bento



A faixa de som deve ser ouvida com phones.
 
               
 
Ficha Artística
de Paula Diogo e João Bento
fotografia Pedro Lacerda
coprodução Má-Criação, TNDMII 
parceria Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, Citemor, O Espaço do Tempo, Alkantara, Galeria Zé dos Bois

Projeto financiado pela República Portuguesa - Cultura e DGArtes
 
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