TEATRO

texto e encenaçãoPascal Rambert
15 set - 14 out 2018
qua e sáb, 19h > qui e sex, 21h > dom, 16h
Sala Garrett
texto, encenação e espaço cénico Pascal Rambert
com Beatriz Batarda, Cirila Bossuet, João Grosso, Lúcia Maria, Rui Mendes
elenco infantil Asia Galante, Maria Abreu e Sara Barbosa
apoio ao elenco infantil Sandra Pereira
assessoria artística Pauline Roussille 
tradução e apoio à dramaturgia Joana Frazão
apoio Institut Français à Paris, Institut Français du Portugal, Embaixada de França em Portugal, Companhia Olga Roriz
produção TNDM II
duração 1h45 (aprox.)
A classificar pela CCE
Em 2012, fui convidado a montar a minha peça Clôture de d’amour em russo no Teatro de Arte de Moscovo. Encontrei-me durante várias semanas com mais de sessenta atores da companhia. Vi-os um a um. Dessa maneira simples de nos encontrarmos com alguém: falando. Fazendo perguntas. Às vezes durante uma hora, às vezes durante dez minutos, falava com eles. E aparecia uma vida. A vida deles. A Rússia. Para os mais velhos: a Rússia comunista. Alguns tinham representado diante de Estaline. Mas também a vida deles de atores. Todos os papéis. Todas as réplicas. Todas as personagens. Tudo estava ali. Tudo estava ali, na sala onde me encontrava com eles: a mesma sala que vemos na fotografia da primeira leitura d’A Gaivota, com Tchékhov, rodeado pelos atores da criação original. Tudo se reconstruía à minha frente. Pelas palavras. Mas também pelos corpos. Quando perguntei a uma atriz que tinha quase oitenta anos o que ela tinha guardado na memória como papel de destaque, ela falou-me de Nina n’A Gaivota. Perguntei-lhe o que ela fazia. Contou-me que no fim do segundo ato tinha de apanhar a cana de pesca de Trigórin, virar-se para a plateia, fingir que lançava o fio de pesca e dizer "um sonho”. Depois a cortina baixava.

Então eu disse-lhe: "Poderias refazer esse momento aqui, nesta sala?” Ela levantou-se e empurrou as cadeiras e as mesas. Depois esperou um segundo de olhos fechados e refez a cena, sessenta anos depois de a ter representado. Tudo estava lá. No seu corpo. Na sua voz. Todo o teatro estava ali. Ela tem vinte anos. O seu corpo de vinte anos. Toda a história do teatro estava ali. E foi nesse preciso momento que nasceu TEATRO. Era o mês de fevereiro, em Moscovo. Fazer isto: falar com atores. Com pessoas que são atores. Atrizes. Jovens. Mais idosos. Com recordações. No corpo. Na voz. Nos olhos: ou seja, na memória visual. Este ator visto. Esta atriz vista naquele papel. Tudo. Todo o amor pelo teatro. Num corpo. Em gargantas. Em peitos – é aí que vive a emoção. Em todas as palavras decoradas. Nos espetáculos adorados. Nos espetáculos que viraram do avesso as nossas vidas. TEATRO é isso: quando aqueles que o fazem viram do avesso as nossas vidas. Transformam as nossas existências.
Quando o Tiago Rodrigues me propôs vir fazer qualquer coisa no Teatro Nacional, eu perguntei-lhe: "Haverá uma trupe, uma companhia que pudéssemos misturar com atores exteriores ao Teatro Nacional?” Ele respondeu-me: "Sim.”
Então eu disse-lhe: "Vamos fazer TEATRO / Portugal.”
 
Pascal Rambert

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