Atrás da cena - 'Filodemo'

Camões e o Teatro

Foram a poesia épica e a lírica que o imortalizaram, mas Luís de Camões mostrou o seu génio criativo e literário igualmente na escrita teatral, embora esta faceta tenha, por muito tempo, sido subvalorizada. A singularidade d’Os Lusíadas e das Rimas, bem como a sombra lançada por Gil Vicente na cena teatral portuguesa, votaram as peças de Camões a um lugar menos preponderante, apesar da sua relevância no contexto do Renascimento português e na evolução da história do teatro em Portugal.

A escrita para teatro de Camões resume-se a três títulos, ou três autos, habitualmente classificados como comédias: Auto dos Anfitriões, Filodemo e Auto d’El-Rei Seleuco.

Embora não se conheçam registos autógrafos dos textos e não tenham sido publicados em vida, são há muito atribuídos a Camões. Os dois primeiros foram impressos em 1587, sete anos após a morte do autor, num volume que incluía também peças de outros dramaturgos contemporâneos — Autos e Comedias Portuguesas feitas por António Prestes, por Luis de Camões, e por outros Autores Portugueses.



O terceiro é de origem mais imprecisa e controversa, pois só conheceu publicação mais de meio século depois, em 1645, quando Paulo Craesbeeck o incluiu na edição de Rimas, publicada juntamente com a poesia lírica de Camões. A forte influência clássica, a valorização do Humanismo renascentista, a linguagem cuidada e a mistura de elementos eruditos e populares são características preponderantes das comédias de Camões, onde o amor, o engano, a troca de identidades e conflitos morais conduzem as narrativas.

Em O Auto dos Anfitriões, o autor inspira-se em Plauto, acentuando o aspeto cómico do mito de Anfitrião e trazendo-o para a realidade social do seu país e da sua época. À semelhança dessa obra, Auto d’El-Rei Seleuco tem como fonte, para alguma crítica académica, a antiguidade clássica, mais concretamente um episódio histórico relatado por Plutarco.

A trama explora a paixão ilícita de Antíoco, filho do rei Seleuco I Nicátor, pela sua madrasta. Dos três textos, é o mais sério e curto e também o mais reflexivo e experimental, testando o formato do auto e adotando uma estrutura mais discursiva.


Em Filodemo, notam-se ainda influências clássicas na estrutura, personagens e situações, mas a peça não se inspira em textos anteriores nem em personagens mitológicas ou históricas. Camões aproxima-se de modelos ibéricos — Gil Vicente e a Celestina, de Fernando de Rojas —, refletindo os valores humanistas predominantes no Renascimento.

No âmbito das comemorações dos 500 anos de Camões, o D. Maria II deu palco à obra do escritor em quatro momentos. Em 2024, voltou a acolher António Fonseca e o seu projeto de longa data e fôlego - a falação integral d’Os Lusíadas como nunca os ouviu, onde o ator transformou o poema épico numa experiência de teatro duracional, recitando cada um dos 10 antos, ao longo de um dia inteiro, num palco especial: o Mosteiro dos Jerónimos.

No mesmo ano, em dezembro, Pedro Penim apresentou uma primeira aproximação a Filodemo, com a leitura encenada do texto no Convento de S. Pedro de Alcântara, já com parte do elenco do espetáculo futuo a dar voz às paavras de Camõs.


Em março de 2025, Inês Vaz e Pedro Baptista propuseram a sua leitura de Auto dos Anfitriões, em Auto das Anfitriãs, uma derivação festiva e atualizada da trama de Anfitrião e Almena, onde se questionavam alguns alicerces da contemporaneidade a partir do universo mitológico da peça original e da biografia de Camões. Este espetáculo teve apresentação em Lisboa, na Sala Estúdio Valentim de Barros, tendo depois circulado por mais 11 concelhos, de norte a sul do país.

Chegados a 2026, o D. Maria II apresenta 'Filodemo', convidando a redescobrir aquele que é para vários especialistas em literatura portuguesa — como António José Saraiva & Óscar Lopes ou Hernâni Cidade — o texto teatral mais conseguido de Camões, pelo seu equilíbrio dramático, personagens bem construídas, diálogos naturais e elegância literária.

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