Horas do Diabo

26 fev - 14 mar 2004

4.ª 15h30
5.ª a Sáb. 21h30
Dom. 16h


Sala Garrett

texto Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Fernando Pessoa
aconselhamento literário Teresa Rita Lopes
dramaturgia, encenação e espaço cénico João Brites
oralidade Teresa Lima
corporalidade Luca Aprea
assistência de encenação André Amálio 
elenco Dilek Serindag, Jacek Milczanowski e Maria Gil
cenografia e figurinos Clara Bento
execução do guarda-roupa Teresa Louro
desenho de luzes Luís Fernandes 
sonoplastia Sérgio Milhano
direcção de montagem Fátima Santos
co-produção TNDM II no âmbito do projecto europeu Magic-Net com as companhias Carrousel Theater An Der Parkaue, de Berlim Teatr Mumerus, de Cracóvia e Theater An Der Sihl, de Zurique

As três maiores religiões universais pela(s) voz(es) de um dos mais internacionalizados poetas portugueses.
Em português, turco e polaco as mesmas palavras - porventura pistas para melhor entender as múltiplas inter-relações étnicas e de religiões que conduzem a alguns dos grandes conflitos que hoje se vivem pretexto para se poder acreditar que, apesar de tudo, o entendimento será ainda possível...


A PROPÓSITO DE HORAS DO DIABO

Pessoa escreveu, muito jovem, que queria inventar uma religião sem Deus. Deixou-nos supor, mais tarde, que era "uma metafísica recreativa” esse "drama em gente”, escrito ao longo da vida, que reúne, em situação, as falas e mesmo as vidas das personagens pelas quais se multiplicou. E mais disse que a "metafísica recreativa” que a obra dos poetas, em geral, constitui corresponde a uma "religião individual”.

A obra de Pessoa pode, pois, ser recebida como uma religião de faz-de-conta em que o poeta ("animado pela filosofia”, como disse ser) exprime o seu "pasmo essencial” perante a vida e busca apoio e conforto para a alma atormentada que é a sua, a de algumas das suas criaturas e, afinal, a de todos os que enfermam do que ele apelidou de "morbo cristista” – a doença do Ocidente depois do advento do cristianismo. Repaganizar as almas, dotá-las desse corpo inteiro que, desde então, as tinham ensinado a renegar, é o lúdico dever que Pessoa se impõe ao inventar Alberto Caeiro, o novo Cristo, solar e pagão, assim como o seu acólito Ricardo Reis.

No livro Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro (de que ficaram palavras soltas que me apliquei a reunir) Campos, que o assina, faz de evangelista desse Mestre, já então falecido, de que se põe a "recordar” os ensinamentos, reconstituindo as conversas do "grupo”: ele, Caeiro, Reis, o próprio Pessoa e o principal teórico do Paganismo Novo, António Mora.

João Brites socorreu-se também, para urdir estas ficções, de um conto dialogado, A Hora do Diabo (de que nos ficaram, à boa maneira pessoana, farrapos soltos que tive que costurar). É este Diabo (que se revela o reverso de Deus) que prega o preceito fundamental de que todas as religiões são verdadeiras porque não fazem mais do que repetir a mesma frase, em línguas diferentes.

Na invenção dos rituais para uma nova religião (de faz-de-conta, não esqueçamos), que apenas se sustenta do poder mágico da palavra, colaboram as figuras de mitos reinventados, nomeadamente Salomé (saída de uma peça que Pessoa longamente esboçou e de que ficaram fragmentos que reuni a outros de outras peças com o título O Privilégio dos Caminhos).

Pessoa também se aplicou a reinventar outros rituais – menos solares, estes, inspirados aparentemente pelas cerimónias maçónicas (que fixei em Pessoa por Conhecer).

João Brites, qual novo Caeiro, vem lembrar a tal verdade enunciada pelo Diabo, de que os homens, mobilizados pelos seus cegos ódios, andam tão esquecidos: a de que todas as religiões nada mais fazem que balbuciar a mesma frase, em busca de uma verdade que é, afinal, sempre a mesma.

Teresa Rita Lopes

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